quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Vergonha

Cena do filme "Shame" de Steve McQueen (II)

          Michael acordou esbaforido, aquele habitual anseio o estava dominando novamente.
          Levantou-se da cama sedento pelo sangue do seu vício, tentou focar os seus pensamentos em qualquer outra distração, mas, invariavelmente, inúteis eram os seus esforços.
         Então, fartou-se da refeição de si mesmo, deglutindo cada pedaço da sua vulnerável consciência.
           Quando parecia que estava saciado, eis que surgia um resquício da sua lascívia que recriava a indomável tempestade de desejo. Novamente, via-se vertido em instintos.
            Cada vez mais tortuosa era a obrigação de disfarçar a sua natureza pervertida. Em todo o lugar que ia, a cada corpo feminino que atravessava o seu caminho e lhe atraía, sua mente se encarregava de conceber as mais diversas promiscuidades, todas as picardias imagináveis e inimagináveis. Aos seus olhos eram corpos nus implorando por sexo. Extasiava-se com os hipotéticos gemidos de prazer de cada um.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ela

Cena do filme "Ela" de Spike Jonze

Meus sentimentos eram artificiais ou reais?
Eu amava a ideia que eu tinha do amor, não amava a realidade, tão cética.
Eu amava imaginar você nos meus braços, do meu lado, na minha cama, e eu poderia desabafar o mundo, esquecer-me dos meus pensamentos insidiosos.
Eu amava uma concepção, uma hipótese, quem me dera que a minha quimera fosse minha vida.
Eu amava a mim mesmo quando estava apaixonado.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vida Pueril

Cena do filme "História Real" de David Lynch

Minhas mãos estão sujas de poeira
Esse céu que não muda de cor
Os cães rodeando a sujeira
Esse marasmo que me causa dor
Quem viu aquele carro de luxo?
Quem queria ter o mesmo carro?
Só que você não tem
E sabe que não precisa

Preencha-se de valores subjetivos
Contas correntes de atitudes
Bancos de ideias
Retire o seu saldo moral

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Egoísmo Nosso de Cada Dia

Cena do filme "O Sucesso a Qualquer Preço" de James Foley
 
Palavras ininterruptas, o ponto final do desespero
O peso do passado recai sobre os ombros exauridos do presente
Os sussurros de uma multidão de fantasmas apressados
Pelo sangue verde que entorpece o ambiente

As preces das crianças invisíveis
Os olhares atentos aos espetáculos midiáticos
Quando a mobília de ouro afundar
Talvez os escândalos sejam percebidos