sábado, 27 de fevereiro de 2016

Vampira

Cena do filme "Trainspotting" de Danny Boyle

A noite viria de repente, nenhum sopro de sol. O milagre da eletricidade se instaurava pelas terras escuras e alimentava o oceano infindável de luzes.

Alice estava pronta para mais uma noite vívida, de ruas largas, pneus cantando, bebidas ao léu. Toda a vida reprimida durante a semana, enclausurada em escritórios gris, irrompia da sua postura de rebelde sem causa.

A vida é uma só. Da garganta, saíam as letras de suas músicas favoritas. Cantava e bebia como se o mundo fosse desmoronar. A euforia das drogas, dos beijos, das carícias, do sexo despudorado... da ausência de escrúpulos. Quem iria julgar?

Ela tinha seus amigos, sua tribo fiel que, aos poucos, foi se separando. Dando na vida, um jeito! De rompante, o mundo adulto havia capturado o espírito subversivo do seu grupo. Nada restara, apenas nostálgicas lembranças que eram, frequentemente, esmagadas por pilhas intermináveis de papel. Que merda de emprego!

A semana repulsiva era agravada pelos solitários fins de semana. Em baladas, até ia, mas com a animação de um cadáver. Sem amigos, sem companhias interessantes, sem causas para ser mais uma rebelde sem causa. A vida ficou entediante para Alice, embora ainda carregue nos lugares mais belos da sua mente os momentos que nunca irão se apagar e que valeram por toda uma vida. Agora, só de recordar por segundos, permite-se sorrir como há tempos não fazia.

Ah Alice, se você soubesse o que ainda está por vir, não desistiria do sol.

Por Vitor Costa

7 comentários:

  1. Muito bom! Gosto do jeito que você escreve, tipo um desaguar sem ser cachoeira, que vem vindo de mansinho, e não chega nunca porque chega ao vazio. Vi muito de mim, muito de muitos. Abçs.

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  2. Seu jeito de escrever sempre me encanta. Obrigada por isso!

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  3. Belíssimo texto, Vitor. Narrativa envolvente, ágil, surpreendente, tu é o cara nesses assuntos. Entendo Alice. Abraços!

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  4. Me vi nesse conto, não sei se pela conformidade da personagem central ou pela vida fatigada que ela leva sem se importar.

    Fazia tempo que eu não aparecia aqui, desculpe por isso.

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  5. Como sempre muito criativo e o teu texto de uma qualidade impecável.
    Saudades daqui.

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