quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Vergonha

Cena do filme "Shame" de Steve McQueen (II)

          Michael acordou esbaforido, aquele habitual anseio o estava dominando novamente.
          Levantou-se da cama sedento pelo sangue do seu vício, tentou focar os seus pensamentos em qualquer outra distração, mas, invariavelmente, inúteis eram os seus esforços.
         Então, fartou-se da refeição de si mesmo, deglutindo cada pedaço da sua vulnerável consciência.
           Quando parecia que estava saciado, eis que surgia um resquício da sua lascívia que recriava a indomável tempestade de desejo. Novamente, via-se vertido em instintos.
            Cada vez mais tortuosa era a obrigação de disfarçar a sua natureza pervertida. Em todo o lugar que ia, a cada corpo feminino que atravessava o seu caminho e lhe atraía, sua mente se encarregava de conceber as mais diversas promiscuidades, todas as picardias imagináveis e inimagináveis. Aos seus olhos eram corpos nus implorando por sexo. Extasiava-se com os hipotéticos gemidos de prazer de cada um.
            Ocasionalmente, esses devaneios o afetavam tanto que optava por desviar o olhar para não sucumbir precocemente.
            Assim eram os dias desertos de concentração nas atividades sociais, somente a pornografia interessava. Qual seria o site que exploraria dessa vez ou quem seriam as prostitutas que escolheria nessa aprazível noite de verão?
            Quando adentrava as instalações gélidas de seu apartamento lúgubre, enxergava, por efêmeros instantes, a imagem degenerada que se tornou de si mesmo, sem qualquer indício de intimidade emocional consigo mesmo. Era um vazio dilacerante, mas que não o impedia de seguir seus rituais devassos.
            O sol escaldante sinalizava o início de mais um dia, o cheiro de sexo da noite anterior ainda pairava sobre o seu quarto. Por entre os lençóis, havia aquele exaurido e solitário corpo que logo despertaria faminto por novas orgias.
            Abriu os olhos de ressaca sexual, realizou o mecânico movimento de conferir as horas no celular e constatou que estava atrasado para trabalhar, porém aliviou-se instantaneamente quando sua memória dispersa o lembrou de que era um domingo. Era um domingo qualquer.
            Passou considerável parcela do dia tentando persuadir uma mulher, com quem havia dormido algumas vezes, a compartilhar aquele enfadonho domingo em sua cama. Ele desejava calidamente se aventurar por cada contorno daquele corpo lapidado pela natureza, queria reviver aquela ardência, aquela sensação de prazer absoluto. Todavia, a vontade dela era outra, ela almejava estreitar as ruas daquela alquebrada relação. Ao perceber a descabida intenção dela, imediatamente omitiu seus objetivos predatórios com um constrangedor silêncio ao celular. Não sabia lidar com sentimentos alheios e tinha repulsa aos relacionamentos.
            Descartou aquela opção e, sem demora, procurou avidamente por outros contatos, porém, naquele dia, conseguir sexo gratuito e de qualidade estava sendo uma tarefa árdua. Suas tentativas perduraram até o reluzir daquela voluptuosa lua, quando optou, então, pela saída de honra: o orgasmo virtual.
            Iniciava-se uma nova semana que de nova não tinha nada, a mesma rotina disfarçada de mudança e os mesmos costumes durante a estadia no escritório. Palavras apáticas na boca que soavam ocas, combinando com sua presença invisível. Os momentos de personalidade surgiam quando, sem convites ou permissões, seus pensamentos tentadores invadiam sua inércia e se indagava sobre o aparente controle das outras pessoas, todos os intactos por suas camadas de civilidades, todos envoltos por suas auras de racionalidade e fé:

            "Como conseguiam reprimir de modo tão eficaz a essência animal deles? Como se focavam tão facilmente em banalidades e se expressavam tão espontaneamente em verborragias frequentes?"

            Geralmente, questionamentos como estes logo seriam dissolvidos em posteriores ejaculações, porém, dessa vez, eles o acompanharam por dias e por dias sentiu um profundo desprezo por si mesmo.
            Tinha plena consciência do seu vício frenético, mas jamais a mudança lhe parecia promissora, mesmo porque, não se importava com os supostos julgamentos alheios acerca do seu estilo de vida. Entretanto, a sua consciência estava se fortalecendo na sua irresolução, interferindo até na sua rotina sexual.
            Um dia, consumido pela autocomiseração, Michael se lembrou daquela auspiciosa criança, das vezes em que ela ludicamente fingia ser perfeita, em que simulava movimentos estritamente programados, passos firmes, posturas retas, olhares fixos, palavras eloquentes tal como um androide. Recordou-se também do modo admirado com que aquele menino enxergava a honradez dos seus heróis altruístas, da ingênua pretensão de seguir uma forma de conduta irretocável perante a igreja e a sociedade, das nostálgicas reuniões familiares que mitificaram sua infância.
            Quando voltou ao seu anuviado mundo, nem notou a lágrima reveladora que havia percorrido sua face e alcançado o fundo do abismo. O mesmo abismo no qual aquela falecida criança habitava e no qual seu platonismo amoroso foi abandonado.
Vitor Costa

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