terça-feira, 27 de outubro de 2015

O Último Serviço

Cena do filme "Chinatown" de Roman Polanski

Deparou-se com o espectro no espelho. As glândulas sudoríparas em transe e o olhar atônito descortinavam a ilusão. Coragem, homem! De todos os serviços, esse, indubitavelmente, era o mais ingrato, ainda mais porque os letárgicos escrúpulos dispararam sinais vitais, como se quisessem respirar na ausência de oxigênio. 

Havia anos que seus movimentos eram metódicos, que sua vida era simples e sua disciplina, irrepreensível, porém, seu mundo intocável havia sido bruscamente invadido por uma forma de vida desconhecida.

Como ele poderia saber que o destino tinha um senso de humor tão perverso. Justo ela! Em outros tempos, hesitar era uma impossibilidade sólida, porém, dadas as fatídicas circunstâncias, nunca sua assertividade vacilou tanto. Os pensamentos trêmulos de uma mente, até então, irresoluta, imersa em sangue e desprovida de remorso. 

Mesmo o relógio, seu cúmplice obediente, parecia debochar de sua situação e transformava segundos em horas apenas para apreciar aquele sofrimento inédito. 

Pela primeira vez na vida, ele não sabia o que fazer.

Invocou o seu deus morto, despejou lágrimas ocultas e, a mais insolente das hipóteses, habitou sua mente: fugir. Aprume-se, homem! Ele vai te fazer de comida de porco se tu fizer isso! Despido de qualquer traje emocional, ele era apenas desolação e revolta.

Seus colegas de trabalho se limitariam a dizer que era somente frescura, a tal crise dos 15 corpos. Porém, ele tinha suas razões, ela era perfeita na sua imperfeição, encantadora em demasia, nem parecia humana, deslumbrante fantasia real. Tinha ela, a anja balzaquiana, que ser, injustamente, a filha do chefe. 

A ele não surpreendia um pai desejar o corpo morto da filha, o mundo era suficientemente insano. No entanto, que demência descabida era ordenar o extermínio de um ser tão especial, pobre espécime esporádica em território miserável. Ao inferno com essa vida! Não vou fazer! Tá Decidido! Antes esterco suíno do que eterno amaldiçoado! 

No ápice do desespero, decidiu sumir. Pela janela, o correr das paisagens, embora os pensamentos estáticos soubessem que o chefe enviaria alguém para persegui-lo, como uma sombra incessante. E o pior, substituiria-o para matá-la. Profissional experiente que era, enxergava alguma probabilidade razoável de sobrevivência. E ela? Que chances teria? Queria apenas poder senti-la... mais uma vez! 

Pela janela, o sol se despedia, levando consigo as esperanças de revê-la. 

Este texto foi escrito ao som de Chinatown - Love Theme

Por Vitor Costa

17 comentários:

  1. Ao passar pela net afim de encontrar novos amigos e divulgar o meu blog, me deparei com o seu que muito admiro e lhe dou os parabéns, pois é daqueles blogs que gostaria que fizesse parte de meus amigos virtuais.
    Pois se desejar visite o Peregrino E Servo. Leia alguma coisa e se gostar siga, Saiba porém que sempre vou retribuir seguindo também o seu blog.
    Minhas cordiais saudações, e um obrigado.
    António Batalha.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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    1. Muito obrigado Antonio! Fico feliz com sua presença, certamente irei visitar seu espaço! Abraços

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  2. Gosto muito dos seus textos, Vitor :3

    http://sobremeninasevodcas.blogspot.com.br/

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    1. Muito bom saber disso Veronika! Volte sempre! ;-)

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  3. PQP, VÍTOR. De longe, o melhor texto que li neste blog, arrepiei cada fiozinho agora!

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  4. PS: Notei o enorme intervalo entre as postagens do Mundo em Cenas, o que tem rolado? Está concluindo algum curso ou algo do tipo? ;)

    Beijão, meu queridíssimo!!!

    E novamente, parabéns pelo puta texto. E amei o deboche blasfêmico HAHAHAHAHA =*

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    1. Então Hell, tenho me dedicado mais na melhoria da minha situação profissional. Ultimamente tenho tido menos tempo, mas fico muito feliz de saber que você notou a ausência dos posts :-) Pretendo postar com maior frequência em breve ;-)

      Hahaha obrigado pelos elogios calorosos. O deboche foi a cereja no bolo né Hahaha

      Beijão

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    2. Sem dúvidas a cereja no bolo HAHAHAAH <3. Genial!
      Claro que notei, passo sempre por aqui.

      Bom saber que está aperfeiçoando seu profissional, em tempos de crise é fundamental segurarmos o que temos, né? Além, de claro, ser prazeroso e somar à equipe. Todo o sucesso do mundo, você merece.

      Beijão, Vitor <33333333333333

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  5. FODA. Que situação, que escolha, que momento...!

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  6. Excelente, Vitor! És um escritor de mão cheia , pronto. Tem estilo próprio, elegante, culto. Quando ao conto...Situação parecida com um filme, também de mafioso, que encarregou seu capanga de matar uma moça, mas, ai ele se apaixonou e não o fez, o gangster mandou outro alguém dessa fez matar os dois. Muito legal a narrativa, tocante. ABRAÇOS!

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    1. Mais uma vez, agradeço muito seus elogios Fábio! Sempre uma honra enorme! Abraços amigo.

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  7. Heeeeey :D eu aqui rs

    Não cheguei a assistir esse filme ainda, mas vai pra lista *.* Quanto ao texto uhm me lembrou de longe os romances de Shakespeare por essa tonalidade impossível e também as tragédias gregas :B Na realidade que na minha mente sinto tudo perfeitamente harmônico para uma peça teatral *.*

    Maravilhoso como sempre, amg
    Passe bem
    xoxo

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    1. Como assim Washington? Recomendação máxima!!! É um dos meus filmes favoritos :-) Que honrosa comparação, mesmo que longínqua. Adoro esse tom trágico de Shakespeare!

      Muito obrigado caro amigo!

      Abraços

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  8. Ao passar pela net afim de encontrar novos amigos e divulgar o meu blog, me deparei com o seu que muito admiro e lhe dou os parabéns, pois é daqueles blogs que gostaria que fizesse parte de meus amigos virtuais.
    Pois se desejar visite o Peregrino E Servo. Leia alguma coisa e se gostar siga, Saiba porém que sempre vou retribuir seguindo também o seu blog.
    Minhas cordiais saudações, e um obrigado.
    António Batalha.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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