segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Noite em que o Mundo não Desapareceu

Cena do filme "As Vantagens de Ser Invisível" de Stephen Chbosky

Bebi quatro doses de vodka ou foram cinco? Amigo, mais uma dose de tequila, por gentileza (ainda consigo ser educado). Não há tempo a perder, agora as horas vão acelerar mais ainda, é o que sempre acontece. O álcool distorce totalmente a percepção da realidade, inclusive do tempo. Já são três da manhã, mas tinha acabado de entrar na festa e ainda nem meia-noite era.

Três e meia. Acho que, para variar, nessa noite nada vai acontecer. Talvez precise reabastecer o tanque. Cara, mais uma dose! (não há tempo para gentilezas). Uma enorme euforia e uma vontade louca de me esquecer me dominam. Como vim parar aqui? Perto do palco, pulando e dançando com estranhos que agora me parecem ser amigos íntimos. Não consigo distinguir essas batidas sonoras, nem sei que música estou dançando. Pouco importa. Olho meu copo totalmente vazio, não sei se isso é bom. Repentinamente, um lampejo de sobriedade invade a minha mente. Ela está aqui! Justo a Emily! Fudeu! O que eu faço? Meu copo vazio me dá uma ideia. Me vê uma vodka com energético!

Além de não conseguir ordenar muito bem meus pensamentos, agora meus passos começam a me sabotar. Sinto meu cérebro se despedindo do meu corpo. Ando, esbarrando, emitindo desculpas, ninguém se importa, todos estão tão ou mais bêbados do que eu. Tô muito louco! confesso ao meu mais novo melhor amigo, cujo nome não me recordo. Mais um lapso temporal. Onde eu estava? Onde ela estava? Como vou encontrá-la agora? Onde ela estava? Concentre-se... concen...

De quem são esses lábios? Já tive beijos melhores. Será que ela é bonita? Não quero perder essa lembrança. Cesso o beijo, seguro delicadamente o pescoço dela e tento fixar meus olhos nos olhos dispersos dela, volto a beijá-la e, em seguida, esqueço-a completamente. Por que ainda insisto em pensar? Quem era aquela? Não era a Emily, era? Claro que não!

Cinco e meia. Caralho, o tempo só pode estar de brincadeira comigo! As pessoas começam a se dispersar, a música vai perdendo a potência e alguns vão perdendo a consciência. Porém, a minha inicia o seu processo de recuperação, embora tudo ainda gire fora do meu eixo. Preciso me sentar. Permaneço cabisbaixo, na calçada em frente ao local da festa, com o copo vazio na mão, esperando a terra se realinhar. Quando levanto a cabeça, enxergo uma garota vindo em minha direção. Quem será? tento focalizar a imagem e percebo que é a Emily! Queria muito que o meu copo estivesse cheio agora.

- Ei, tudo bem com você? Não sabia que você bebia.

- Nem eu - respondo com um sorriso inibido.

Ela ri de volta.

- Você faz o mesmo curso que eu, né? Já te vi pelos corredores da facul.

- Sim, estou no terceiro ano e você? 

- Segundo.

Preciso encontrar um meio de estender a conversa sem parecer mais um idiota. Não posso recorrer ao questionário clichê (Qual cidade você mora? Quantos anos?... blablablá) que, certamente, muitos caras já haviam feito para ela, então pergunto algo que me ocorre de supetão.

- O que você faria se o fim do mundo fosse amanhã? Se soubesse que morreria amanhã na mesma hora que todo mundo?

Ela não hesita e diz:

- Transaria até a morte! - Um riso involuntário invade a minha face e, simultaneamente, contagia o rosto dela. Não sabia que ela tinha um senso de humor tão despojado, aliás, pouca coisa eu sei sobre ela, além do fato de que é a garota mais cobiçada da faculdade.

- E você? O que faria?

- Ficaria aqui com você até o fim.

- Ownn... que fofo! - Ela sorri e me dá um beijo no rosto.

Fico um pouco embaraçado e quando penso em retribuir o beijo, as amigas dela aparecem como assombrações mau humoradas e a apressam para ir embora. O táxi chegou, Emily! Vamos logo!

- Bom, vou indo, espero que possamos conversar mais na facul amanhã - Ela se despede de mim com outro beijo bem no meio da minha bochecha esquerda, eu pude sentir os lábios úmidos e macios dela, e o batom deixando sua marca.

- Nunca desejei tanto que o mundo não acabasse amanhã.

Ela esboça um último sorriso e pisca o olho direito.

Talvez seja fruto da embriaguez dela, talvez seja uma mera aposta com as amigas, talvez eu tenha exagerado e omitido alguns detalhes que minha memória inebriada apagou para que eu me sentisse melhor, porém, fato é que ela me deu, naqueles breves instantes, algo que, até então, eu desconhecia e que nenhuma bebida, festa, droga... poderia ter me dado: ela me deu esperança. E, realmente, se o mundo fosse acabar amanhã, eu não poderia estar mais frustrado.

Por Vitor Costa

"Se o fim do mundo fosse amanhã..." foi o tema proposto do Projeto Literário 16on16 para esse mês, ao qual, com imensa satisfação, faço parte. Confira os textos dos outros participantes:  ArianaBárbaraCamyliFernandaGhiovanaLianneLysMáiraMariNicolleThaísAlexandre

20 comentários:

  1. Vitor, você sempre surpreende com sua narrativa.
    Que "fim de mundo" mais emocionante e talvez edificante.
    Nem pensei em frustrações, amores e afins.

    Beijo

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    1. Obrigado Ariana, que bom que gostou :-)

      Beijos

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  2. Adoro esse contraste dos textos da parte feminina com a a masculina do projeto, é sempre interessante ver a personalidade de cada um em cada novo tema. Adorei teu texto Vitor. Ri muito, foi ótimo.
    Beijo!

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    1. Obrigado Máira, também acho muito interessante esse contraste, acredito que enriqueça ainda mais o Projeto :-)
      Beijos

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  3. Que delícia de texto, Vítor. Me senti nessa festa como a amiga bêbada que te incentiva a ficar com a tal menina, sem ter a mínima ideia da profundidade que quis causar num mero encontro "casual" de bocas... HAHAHA!
    Como é bom saber que ainda existem pessoas que se importam, se interessam e se alimentam de conhecer o outro sem o eterno clichê tatuado na testa <3. Mesmo que seja em um texto. Nossas intenções ao escrever às vezes nos revelam muito mais...

    PS: Eternamente encantada com seu comentário no meu texto "Por que a sapa masculina e a bicha feminina são ridicularizadas?", concordo com cada detalhe - e sim, já assisti Tomboy (um de meus preferidos, apesar de não ser tão cult e detestar filmes franceses AHAHHAHA).

    Beijos, querido =*


    Faroeste Manolo
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    1. Adorei seu comentário Hell :-)
      As pessoas andam tão carentes de conversas diferenciadas, ainda mais em uma balada, onde tudo é tão fútil e superficial.
      Beijos querida.

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  4. Construir histórias - ainda que breves - nunca é uma tarefa fácil. Sempre penso que as estruturas pedem coerência demais, as histórias precisam ficar amarradas em detalhes perceptíveis ou não, enfim, a negligência de fatos nunca é permitida.
    Mas vejo que você conseguiu algo aqui. Eu já não consigo pensar em trechos de histórias completas.
    Essa poderia ser uma história completa. Parabéns.

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    1. Que imensa satisfação ler esse comentário Brunno! Fico muito feliz mesmo ^^

      Grande abraço.

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  5. Muita imaginação, rapaz. Que final de mundo inusitado, menos catastrófico. Ótimo!

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    1. Obrigado Fábio!! Sempre importante saber a sua opinião sobre o texto.

      Abraços

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  6. Ameeei o post e o blog! Bjj <3

    http://blogbaudefeminices.blogspot.com.br/

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  7. Muito bom, de verdade. Me senti preso a história do narrador do começo ao fim.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigado Renato! ;-)

      Grande Abraço!

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  8. Pessoalmente, eu tenho um carinho todo especial pela Dona Esperança.
    Embora já tenha sido magoada e ferida muitas vezes nessa vida, nunca deixei de acreditar que caminhamos todos no
    sentido de uma esperada libertação. A esperança é capaz de ter sempre razão. A esperança não como uma questão de fé, ou dogma, mas sim como fisionomia da paixão.
    A esperança é a consciência de que as coisas estão ao nosso alcance; basta querermos, mas é preciso querer. Pra mim, pessoas que assassinam esperanças deviam ser punidas como ato de crime hediondo. Noutro dia, li assim de um Bispo numa entrevista: os assassinos da esperança cometem o pior de todos os pecados: a degradação do eterno no que o eterno possui de mais temporal e de mais humano.

    Creia, ao contrário do que a história afirma, que ela deu esperança a ele...eu discordo. Foi algo que ele mesmo se auto-presenteou, se permitiu, ao olhar o mundo sempre tão caótico, com olhos melhores, o da esperança.
    Uma vez abertos a cultivarmos bons sentimentos, boas atitudes, pensamentos elevados, que ninguém seja capaz de nos tirar/assassinar/roubar/pisotear nada.


    Meu Olá
    =)

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    1. Não canso de dizer que adoro os seus comentários Priscila, sempre engenhosos e que nos fazem olhar o texto de outra maneira, sob uma nova e intrigante perspectiva.

      Beijos!

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  9. Adorei!
    Se o mundo fosse amanhã, acho que gostaria de fazer a mesma coisa que a Emily.
    É fantástico o jeito que tu escreves.

    Beijo e ótima semana,
    http://mylife-rapha.blogspot.com

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    1. Obrigado Rapha! Que bom que gostou!

      Beijos

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  10. Esperança é uma merda. O pior sentimento de todos, na minha opinião.
    curti o tema, e curti a sua interpretação dele. Foi inesperada, acho que a maioria das pessoas faria um texto apocalíptico e fim, mas você não. Trouxe um contexto para uma crônica urbana e inusitada, coisa que eu nunca esperaria da proposta. Acho que é por isso que esse com certeza foi um dos blogs dos q mais senti falta nesse mês em que sumi.

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    1. Muito obrigado Mari! Teus comentários sempre fazem muita falta por aqui! Senti muita saudade de visitar teu blog também!
      Beijoooos!!

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