segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Jogo Da Vida

Engraçado e, ao mesmo tempo, trágico como certas coisas não mudam.

Cena do filme "Encontros e Desencontros" de Sofia Coppola


Choro copiosamente, o peito dói, meu coração inquieto não me engana, apesar dos disfarces mais exuberantes, infiro convictamente: o que me faz feliz não é desse mundo esquemático.

A pior parte é que são lágrimas imaginárias, sofro por dentro, explosões internas contra o espelho, o fado da indecisão me impede de subir os degraus da justiça interior.

Sou os paradoxos que criei para mim mesmo, sou essa catarse reprimida, por isso minto ao dizer que sou o meu pior inimigo ou que me amo, o que sou é uma nuvem neutra que acumula raios de todos os lugares, acumula a insensatez, o ódio, a mágoa de quem grita em sua direção, uma nuvem distante do céu e que não consegue nem ao menos chover.

Posso até ganhar algumas partidas, talvez? As tentativas são válidas, por que não? Mas, eu sinto que não vou ganhar esse campeonato, porque, na essência, eu não sei jogá-lo, posso ter sorte em algumas rodadas, posso me iludir que serei o número 1, seriam apenas sensações passageiras que sumiriam ao primeiro sinal de estranheza. Não sou um jogador, não consigo simplesmente montar os quebra-cabeças com as peças que me foram dadas, pois essas peças tão pragmáticas não me servem.

Mesmo sem saber o porquê ou se eu teria outra escolha, fui compelido a participar do jogo. Tento entender suas regras, mas não consigo. Jogo como um perene principiante, pois, enquanto a maioria dos outros jogadores está muito ocupada, elaborando estratégias a fim de alcançar os lugares mais cobiçados do tabuleiro, eu ainda não consigo passar da casa “Volte ao início”. Eu sempre acabo caindo nela.


Por Vitor Costa

21 comentários:

  1. Lindo Vitor!
    Palavras bonitas...
    Concordo que também não sei jogar alguns jogos que sou obrigada a participar.
    Manu

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelo gentil comentário Manu!!
      Beijos

      Excluir
  2. Calma, pera, deixa eu falar de uma coisa de cada vez. Primeiro, seu post sobre Shame. Amei. Vc escreve pra cacete, e eu amo qd vc compões contos em cima de coisas que viu, como é o caso desse, e como foi o caso daquele inspirado em taxi driver. Escreva um inspirado em Fight club! *-* Ou então, sei lá, acho que a gente podia fazer uma parceria, escrever alguma coisa juntos. Tipo, você começa, eu termino, ou vice-versa, como vc preferir. Estou sendo chata? kk

    Sobre o post atual, acho que conheço seu feeling. Esse vazio existencial que pega pessoas inteligentes, estava com ele há pouquíssimo tempo rs Bem, sou extremamente competitiva e enxergo tudo como um grande jogo. Não sei se foi isso que vc quis dizer, ou se foi apenas uma metáfora, mas acho que saquei bem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelas palavras Mari, fico muito feliz de ouvir isso de alguém que sou fã. Adorei essa ideia, podemos fazer essa parceria inspirada em Fight Club, inclusive, depois de ler seu comentário, eu já iniciei um conto inspirado no filme e seria uma honra se você finalizasse. Você poderia me passar seu email para que eu possa te enviar o texto e saber sua opinião Mari?

      Sobre este post, você sacou bem sim, era isso que eu queria dizer, que a vida em sociedade é um grande jogo inescrupuloso rs Pois é, esse vazio existencial é cíclico.

      Beijos

      Excluir
    2. CLARO, a ideia é boa, e o filme então é sensacional! rs
      maricebert@gmail.com
      manda lá!

      Excluir
    3. Relaxa, seu comentário lá no blog não ficou redundante, eu curti rs
      Dei uma olhada no seu texto, e adorei! Por mim, pode postar
      Escrevo o meu ao longo da semana e posto por volta de quinta ou sexta, ok?
      Bjão!

      Excluir
    4. Que bom que você gostou Mari, vou postar sim! :-)
      Ok, beijos!

      Excluir
  3. Cara, eu sempre faço a cagada de ler os comentários antes de comentar, e acabo poluindo minha interpretação QIDIUQWHIUDHWQD, ainda mais aqui, onde tu usa sentimentos intensos em meio as palavras. Sabe, eu compreendo esse seu sentimento, essa exposição ao impróprio e desnecessário, é como um opressor sagaz, a vida. Tenho um lado aflorado onde odeio ver que faço parte de um jogo, de um esquema, mas quando sinto que estou nele, eu quero destruir, vencer, sabe? As vezes nos abatemos, é cansativo, atordoa e as vezes amortece a ponto de jogar-nos a um êxtase surreal... Mas como eu disse, é como um opressor sagaz, a vida. Viajeeeeeei né rs Eu sei, eu interpreto texto intensos assim de tantas formas que mal consigo me expressar.

    Enfim, passe bem querido
    xoxoxo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu compartilho dessa sua mania Washington sobre os comentários kkkk Gostei do seu comentário e fico feliz que o texto tenha feito você refletir. Pois é, o problema é que não estou conseguindo mais me amortecer no jogo, focar nele, porque, pra mim, ele não tem lógica. Porém, é preciso se adaptar de alguma forma para sobreviver, essa é nossa natureza... e nossa sina.

      Continue com suas ricas e intrigantes interpretações ;-)
      Abração

      Excluir
  4. Acho que estou um pouco encantada, talvez muito! Cara tu escreve incrivelmente, enche cada frase de sentimentos ora intensos, ora calmos. Sobre esse textos, acredito que esse vazio é parte da essência do ser humano, é aquilo que nos move a continuar vivendo, a correr atrás, sei lá.!

    Beijos
    PseudoPiegas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelo elogio May, fico muito feliz de ler isso.
      Acho que as inquietações existenciais podem nos motivar sim, embora, ocasionalmente, sejam bem impiedosas com a gente.

      Beijos

      Excluir
  5. Vitor, que explosão de sentimentos, que sensações me causou te ler - na verdade, sempre me causa.
    Sentir-se assim estagnado diante do mundo e perguntando-se o porque de se estar nele, talvez seja o maior jogo a ser vencido. Perder faz parte, e veja bem, essencial. Não enxergue essa casa "voltar ao início" como algo ruim, pelo contrário, sorria ao encontrá-la, independente de qual seja a vez. Enxergue-a como uma chance de visitar novos caminhos, conhecê-los a fundo ou ainda, na melhor das hipóteses, percorrer o mesmo caminho com os olhos ávidos, corrigindo erros anteriores o os evitando, afinal é mais fácil desviar do buraco e/ou evitar de tropeçar em uma maldita pedra quando já se conhece a estrada.
    Não seja mais essa nuvem neutra. Você é bom demais pra isso e sabe disso.

    Eu adoro os teus textos. Você escreve incrivelmente bem e quebra todo meu ceticismo quando penso que não pode ser melhor do que já foi.
    Parabéns, uma ótima noite e um beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É uma essencial motivação ler seus comentários Carol, adorei o modo como você enxergou a casa "voltar ao início", eu não tinha pensado desse jeito. Sob essa perspectiva, você tem razão. Talvez voltar ao início não seja uma desvantagem.
      Eu já fui um cara bem competitivo que se torturava quando não conseguia ser o melhor em algo, porém, eu não sou mais assim e aceito muito melhor a derrota, como diz a música do Los Hermanos que publiquei: "Olha lá, quem acha que perder é ser menor na vida. Olha lá, quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar."

      Muito obrigado Carol, te digo o mesmo, você sempre consegue se superar na qualidade dos seus textos ;-)
      Beijos

      Excluir
  6. Olá Vitor...amei seu texto, realmente é o que nos deparamos a cada dia, fomos inseridos ao acaso nesse jogo da vida, e as suas regras geralmente não são compatíveis com nossa estratégia de jogo e muitas vezes temos dificuldades em acertar os passos a serem traçados, porem quando sintonizamos as regras ao nosso estilo passamos a obter êxito em tudo que vem adiante... Amei a analogia que fizeste!!

    Obg pela visita em meu cantinho, volte sempre!!!
    Beijosss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelas palavras Talitta :-) Pois é, acho que a grande questão é sintonizar essas regras ao que queremos, como você disse. Eu já pensei em viver como um Outsider radical, saindo definitivamente do jogo, mas, sinceramente, eu não tenho coragem de abandonar tudo e viver como um andarilho, por exemplo.

      Imagina, foi um prazer visitar seu blog e, da mesma forma, agradeço sua visita aqui.
      Beijos

      Excluir
  7. O problema é tornar isso tudo um jogo quando não é. É apenas um espetáculo onde nem todos sabem atuar, ou fingem atuar. No mais, é como se todo dia fosse uma aula de improvisação. Nunca sabemos o amanhã, porque roteiro não tem. Precisamos aprender a conviver com as surpresas do viver.

    Belo texto meu caro. Bem reflexivo.

    Abração!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aceitemos ou não, vivemos em uma sociedade extremamente competitiva, isso é inerente ao sistema capitalista. Todos querem ser bem-sucedidos, porque é isso o que importa para a sociedade, perpetuar a imagem do sucesso, dos vencedores, daqueles que se destacaram no "processo seletivo" da vida. Por outro lado, quem não consegue ter o mesmo sucesso, sente-se um fracassado, não por auto-julgamento, mas porque é assim que querem nos fazer sentir.

      Por isso eu concordo totalmente quando você diz que "precisamos aprender a conviver com as surpresas do viver". Essas surpresas estão fora do jogo.

      Abração Alexandre, obrigado pelo seu lúcido comentário, me fez divagar rs

      Excluir
  8. Excelente texto!

    Coincidentemente, assisti a esse filme (Encontros e Desencontros) no último fim de semana.. é ótimo :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado Vane!

      Que bom que assistiu e, melhor ainda, que gostou do filme. Eu adoro "Encontros e Desencontros", é um filme singular e extremamente sensível sem ser piegas e cômico sem ser exagerado.

      Beijos

      Excluir
  9. Sua escrita sempre encantando! Parabéns Vitor!

    abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sou muito grato por seu elogio Ana!! Que bom que gosta do que escrevo!

      Também admiro sua escrita, espero que possa postar no seu blog com mais frequência :-)

      Abraço

      Excluir