quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O que os Olhos Desconhecem

Cena do filme "Animais Noturnos" de Todd Haynes

Final de domingo, enquanto muitos eram consumidos pela depressão de uma nova semana, presos em empregos odiáveis, Angela era total calma, uma tranquilidade que contrastava com a violência da chuva socando o chão.

Seus cabelos dourados, espalhados pelo sofá vermelho, formavam uma rima etérea com seu par de olhos negros. Embora, a energia elétrica tivesse sido cortada pela inclemente tempestade, sua face se iluminava pela tela do seu celular. Ainda restavam 50% de bateria.

Faltavam poucos detalhes para selar o encontro. Seria a primeira vez que se veriam pessoalmente, após 1 mês de indiretas sexuais. O combinado era naquela mesma noite de domingo, porém a chuva tratou de esfriar seus calorosos planos.

- Ainda são 19:00h, quem sabe a chuva não para até às 21:00h - Supôs Angela.

O rapaz, muito religioso, rezou avidamente para que a chuva cessasse. As horas seguintes foram de olhos atentos às janelas e uma incessante vigilância por cada sinal de tempo seco. Angela, também se atentou à velocidade das gotas, no entanto, ela não rezou, apenas permitiu à causalidade decidir os rumos daquela noite.

Os ruídos de chuva no teto foram esmorecendo, os trovões se tornando cadenciados e os relâmpagos haviam cessado. A luz vigente voltou a ser a elétrica, que, não somente trouxe brilho ao ambiente, como também inflamou as esperanças do rapaz. Enquanto isso, Angela, ainda estirada pelo sofá, notou um surpreendente silêncio do lado de fora do seu apartamento. Uma aprazível sensação percorreu suas veias e fez seu coração bater levemente mais rápido. Decidiu aguardar as mensagens do rapaz, que chegaram sedentas pelo encontro. Para ele, era um sinal divino de que aquela noite seria especial. 

Faltavam 30 minutos para às 21:00h, e Angela já estava pronta, havia optado por um vestido curto rubro, um salto preto e uma caprichada maquiagem para disfarçar as olheiras acumuladas durante a frenética semana. Desceu os 3 andares, encarando-se pelo espelho do elevador. Havia uma certa apreensão em seu olhar reflexivo, tanto que suas mãos inquietas não deixavam seus cabelos em paz. Caminhou para fora do prédio e aguardou o carro do rapaz. 

Ele, por outro lado, exalava tanta ansiedade que tentou camuflá-la, por meio de um perfume amadeirado, que havia reservado, exclusivamente, para uma ocasião como aquela. Espelhando-se na moda masculina padrão, trajou-se de uma polo azul, calça jeans preta e um sapatênis branco. Por dentro, uma estrutura frágil de garoto virgem, por fora, o inabalável galã que trocava obscenidades com Angela.

21:00h, um luxuoso carro passou por Angela e encostou na calçada, onde ela esperava. Enquanto o vidro automático do passageiro descia, gradativamente, descortinando a misteriosa identidade do sujeito, Angela esticava o pescoço em direção ao vidro para poder constatar se era mesmo o rapaz das fotos. Os olhares se impactaram, dispersaram-se em movimentos tímidos de rosto, para logo em seguida, encontrarem-se novamente. Ela entrou no carro sem grandes delongas, deu-lhe um natural beijo no rosto para romper o mútuo embaraçamento e foram em direção ao destino programado. 

- Angela, eu preciso te dizer: você é muito sexy, estou louco de tesão por você! - O rapaz conseguiu expelir palavra por palavra o que havia ensaiado exaustivamente sozinho. 

- Humm... conte-me mais - Angela entrou no clima lascivo que sintetizava a relação deles.

Ao longo do caminho, mais discursos ensaiados e provocativos preenchiam os minutos no carro. A sugestão do sexo era tão excitante que Angela já estava transbordando desejo, tanto que ordenou ao rapaz que parasse imediatamente o carro e procurasse um lugar deserto. Sem hesitar, ele o fez com a rapidez de um piloto de fuga. Estacionou o carro em um beco escuro, localizado entre um bosque e um rio. O rapaz trêmulo, com o coração querendo rasgar o peito e a respiração acelerada, enquanto retirava com furor o cinto de segurança, não pôde perceber o teatro de Angela, que frígida como pedra, desferiu uma letal facada em seu pescoço. 

Em meio ao mundo de sangue, o rapaz ainda tentou reagir, agarrando-a com desespero e, antes de desfalecer definitivamente, pôde sentir em seus dedos algo robusto embaixo da saia dela. Naquele derradeiro momento, uma efêmera lembrança cortou a mente do rapaz, era a de um cadáver abandonado naquele mesmo rio, após uma briga com um transexual. 

Por Vitor Costa

14 comentários:

  1. Bom que a chuva tenha parado para permitir essa vingança, esse final <3

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  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... Tava esperando um final assim, nem tão inusitado. Tava tudo muito certinho caminhando para o óbvio. Ai tu, numa reviravolta de mestre, desse uma virada de 360º. Genial, tu é o cara na prosa, contista de primeira, parabéns, menino prodígio, show! Abraços.

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  3. Perfeita a trilha sonora, tou ouvindo agora,muito bem concatenada com o texto. Quem surgiu primeiro a musica ou o texto? Genial, grandioso, tão bem inserida o contesto. Um primor rapaz. Mágico.

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    1. A música. Eu fiz o texto escutando a música, ela ajuda a entrar no clima do conto hahaha Abraço, caro.

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  4. Que post lindo :D

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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  5. O que sempre chama atenção nos teus textos são os finais!!! Sempre inimagináveis, surpreendentes.

    Saudades de te ler Vitor!!! Muito bom... Aqui se faz, aqui se paga rs

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    1. Carol, que saudades de você! Obrigado pelas palavras!

      Fiquei muito feliz de te ver por aqui novamente! Beijos!

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  6. Tadinho, esqueceu-se do célebre pensamento de um tal Heráclito: "Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio... pois na segunda vez o rio já não é mais o mesmo, nem tão pouco o homem!"
    E sejamos sinceros, um homem que queira apenas dar uma "bimbada", raciocinando só com a cabeça de baixo sem se preocupar e nem perceber o que uma mulher realmente está emitindo, merece mesmo encontrar um travecão com um bimbo muito maior do que o dele kkkk. Aliás, Amy Adams é linda pra prefigurar a imagem do texto, devia era ter colocado um afro bem dotado, tipo Terry Crews em As Branquelas, afoito por uma "festa branca" onde quem cruza com o "negão" acaba numa cadeira de rodas kkkkkkkk.

    https://www.youtube.com/watch?v=z4-0qqlVdsk

    Olá Vítor
    =)

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    1. Muito obrigado, Priscila! Sempre ótimo tê-la por aqui!

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  7. Oi, tudo bem?
    Adorei seu blog, parabéns pelo trabalho!
    Vou acompanhar nas redes sociais.
    Beijos. :*
    www.freakandcreepy.com

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  8. Muito obrigado, Gabriele! Vou te acompanhar também ;-)

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