sábado, 28 de janeiro de 2017

Antes que o Sol apareça


Cena do filme "Cidade das Sombras" de Alex Proyas

A noite insípida, de luzes tímidas e ruas nuas, emoldurava o singelo bar de esquina que, naquela gélida madrugada, estava tão carente de clientes quanto a noite, de estrelas. Porém, por entre as mesas desgastadas e o chão de cimento, havia uma mulher sentada na cadeira branca de plástico que, ansiosamente, fitava o relógio com a mesma frequência com que se admirava no espelho da sua maquiagem. As horas fluíam madrugada adentro e nenhuma novidade pareceria surgir da escuridão.

Subitamente, um homem esbaforido atravessou a fachada do bar, rápido como uma luz, chamando a atenção dos olhos verdes claros da mulher, que estendeu levemente o pescoço para tentar enxergar o destino dele. Ao ampliar seu campo de visão, ela avistou o homem estático, de costas, com as mãos nos joelhos e cada vez mais ofegante. Rapidamente, ela recolheu o pescoço e retornou a sua posição original, todavia, dessa vez havia uma inquietude em seu corpo, resultando em mais uma encarada no diminuto espelho. 

O homem, aparentemente imune ao desconcertante frio que consumia a noite, vestia poucas roupas: uma camisa branca, uma calça jeans e um par de sapatênis cinza. Após alguns minutos agachado recuperando o fôlego, levantou-se, inspirou ar frio e coragem, devolvendo apenas o ar, e deu meia volta em direção à entrada do bar. 

Os olhos se chocaram de imediato, provocando um mútuo fervor interno que incandesceu a luminosidade do ambiente, ao mesmo tempo, o vermelho dominou ambas as efusivas faces. Da cadeira, ela se ergueu e, feito uma pintura romanesca, exibiu os tons vívidos de seu vestido rosa e do seu batom escarlate. Seus lisos cabelos castanhos acariciavam sua pele e seus olhos marejados eram incapazes de esconder o êxtase do momento. Da mesma forma, ele não evitava o sincero sorriso e os olhos atônitos de euforia. 

Aproximaram-se, lentamente, tal como a lua alcançando o mar, fitaram-se com recíproco deslumbramento, até que, feito força magnética, os pólos opostos de suas bocas se atraíram impulsivamente. Ao redor deles, o bar decadente, o silêncio lúgubre e o frio lancinante, mesmo assim, fizeram, daquele cenário, um paraíso tropical. 

Embora, de tão intenso, o beijo tenha distorcido o tempo e o espaço, ele não foi capaz de revogar o acordo entre eles, que era um último beijo antes de voltarem, definitivamente, para seus respectivos casamentos e filhos. 

Tão logo o beijo cessou, despediram-se com um abraço atemporal e prometendo um ao outro que aquela seria a derradeira vez, assim como fizeram nos anos anteriores.

Por Vitor Costa

15 comentários:

  1. Cara... sensacional.
    Texto muito bem escrito, detalhamento perfeito, e colocar essa música como pano de fundo fez eu me sentir como se estivessem vendo eles na minha frente.
    Parabéns

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  2. (PALAVRÃO GIGANTE)
    Que narrativa envolvente e alucinante. Eu consegui me transportar pro cenário, estava sentada numa mesa próxima à da moça e assisti dali toda a cena. E esse final? (OUTRO PALAVRÃO GIGANTE). Sensacional. A trilha deixo com 'conversa de botas batidas', dos Los Hermanos.

    A gente corre pra se esconder e se amar, se amar, até o fim.


    Beijo! Amei aqui ♥

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  3. Uau! A sua narrativa é rica em detalhes que nos faz ver exatamente o que você está vendo, sensacional!

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  4. Admiro quem possui essa narrativa poética, gostaria tanto de tê- la também. Gostei muito do texto, parabéns pelo trabalho =)

    www.cinthiacavalieredavid.wordpress.com

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  5. Este conto retrata fielmente (permita-me o trocadilho devido a temática abordada) o nome do seu blog, 'O mundo em cenas'. Consegui mentalizar cada detalhe e sensação. Parabéns pela escrita convidativa e descritiva. Visitarei mais vezes!

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  6. Ler o texto em silêncio e ler com a música de fundo...parece haver dois textos diferentes, igualmente excelentes. O modo com que ele é escrito, detalhando muitas coisas mas, mesmo assim mantendo um ritmo rápido, me fez viajar junto com a história e fazer o texto passar em um piscar de olhos. Parabéns pelo trabalho, o texto ficou incrível.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Maravilhoso! A intensidade dos seus textos é algo que nos puxa e transporta para outra realidade. Meus parabéns!

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  9. Tudo isso é muito bonito. Mas isso é caracterizado uma traição!
    Gostamos de amores impossíveis.

    Besos
    http://minhaformadeexpressao.blogspot.com.br/

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  10. Bem interessante a narrativa, usa recursos ricos para descrever detalhes, como se poesia fizesse de cada ação da trama e com demasiado apreço pelas palavras rebuscadas!
    Bom conhecer sua escrita! Visitarei mais vezes!
    xoxo

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  11. Show de imagens e detalhes, final surpreendente. Muito bem escrito,Victor, parabéns!

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  12. E aí meu querido, como tu tens passado?

    É sempre bom voltar aqui, não se encontra tantos sentimentos em breves parágrafos ultimamente, mas ler suas palavras é sempre um deleite. Preciso também dizer que a trilha ornou de uma maneira fantástica, mas peço que considere, assim como a dica que tu deixaste no meu textin, leia ao som de Skyfall da Adele, nas entrelinhas, até mesmo a letra carrega um pouco desse carpe diem, ao mesmo tempo que melancolia e o desespero que o tempo carrega.

    Enfim, é isso.
    Passe bem :D

    xoxo

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  13. Desculpe a demora pra vir aqui conhecer seu espaço, de belos escritos por sinal. Beijo pode dizer muito de um momento, da delicadeza de uma relação, por mais percalços que ela tenha e isso ficou claro pra mim no seu conto.

    Voltarei mais vezes... volte lá no pequenos deleites também!!! Bj.

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  14. Mesmo a traição sendo algo que ninguém quer para si, alguns escritores têm o dom de fazer a feiura se tornar bonita. Parabéns!

    http://notasmentaisparaumdiaqualquer.blogspot.com

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