quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Inexata Medida do Ser

Cena do filme "Ex Machina" de Alex Garland

Mais um dia finalizado, de números inúmeros e precisão calculada. 

Dia após dia, Ana equacionava a vida, balanceando as possibilidades, para que não houvesse gastos sem necessidades. De números, emoldurava a realidade. Quantos quilos? Quantas horas? Quantos litros? Quantos gritos?

Ela multiplicava a monotonia e dividia pela letargia, o resultado era sempre nulo e previsível. Em ocasiões sociais, enxergava-se como um número primo, uma solitária constante que, nem por um instante, permitia-se variar.

Mesmo que fosse uma ilusão programada, Ana gostava de se sentir no controle da sua vida, apreciava ser uma assíntota, cujos limites nunca seriam violados. A ela, não incomodava o distanciamento emocional nem a escassez de sentimentos, ao contrário, a indiferença era o pilar da sua sanidade. Nesse sentido, adorava o seu nome, pois era um palíndromo, logo, não importava o prisma, Ana era sempre uma única e contínua versão de si mesma.

Entretanto, a raiz de Ana era humana, e, ocasionalmente, questionava-se sobre sua existência, tornando a invariável reta que representava a sua conduta, em uma infindável curva senoide. Nesses momentos, potencializava a morte, e as lágrimas corriam pela sua face de proporção áurea.

A sua consciência era a única variável do seu sistema e a metodologia do isolamento já não era tão racional. Então, consumida por um inédito medo, Ana adentrou à membrana do desconhecido e decidiu ser 100% humana. Ao consentir que a humanidade tocasse seu ser, Ana também permitiu que todos os sofrimentos se tornassem números reais. 

Ana, de médias e medianas, de matrizes inversas, de teoremas diversos, achava que, na natureza, nada poderia ser mais complexo do que a matemática e seus problemas, porém, depois de abandonar o pensamento de metal, percebeu que não há nada mais indecifrável do que o ser humano e seus dilemas.


Por Vitor Costa

16 comentários:

  1. Acredito que e tornei Ana. Toda essa racionalidade me deixa com um vazio.
    Porém, estou me permitindo sentir... é uma coisa muito louca! Sensação gostosa!

    Delicia aqui!
    http://minhaformadeexpressao.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigado pela sua visita, Nathalia. Volte sempre ;-)

      Realmente, consciência de si mesmo não combina tanto com racionalidade.

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  2. "... não há nada mais indecifrável do que o ser humano e seus dilemas" Brilhante, Vitor. A vida é imprevisível, incalculável. Foge a toda lógica, medida exata, razão. É uma equação insolúvel. Abraços!

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    1. Pois é, meu amigo! A consciência humana é um imensurável enigma!

      Abraços Mestre!

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  3. Enquanto Ana quer virar humana, tem muito humano que parece um robô, com dias contados e programados, com expressões tão vazias e corações blindados, e mesmo com as mentes mais brilhantes acabam sendo meros figurantes nessa história da vida.
    Adorei o conto de ficção científica, tenho me aventurado por esse gênero vez ou outra e tem sido muito interessante. Abraços (Blog Coração Nômade)

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    1. Muito obrigado pela visita e pelo comentário, Livia! Quero, sim, ler um conto seu também de ficção científica! Abraços! Volte mais ;-)

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  4. Olá!
    Apesar de não ter muito o costume de ler contos, confesso que ficção científica não é um gênero que me atrai pra leitura.
    Mas gostei bastante da escrita e espero sinceramente ler mais em breve.
    Beijos.

    https://bookobsessionresenhas.blogspot.com.br/

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  5. O que mais me chamou a atenção foi sua linguagem rebuscada, porém, achei carregada de mais de adjetivos que tornaram a minha leitura um tanto enfadonha. Mas veja, isto não é uma crítica geral, mais rebuscado que Shakespeare impossível, e só por isso é que ele é Shakespeare. Certamente eu enxugaria um pouco a descrições para enquadra-lo no meu gosto literário, mas sei, e saiba tb, que muita gente ama esse estilo, por isso, se ele te for natural, como coisa que nasce do nosso instinto de escritor, vem da sua alma e é exatamente assim que deve continuar escrevendo. Abraços.

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    1. A questão do excesso de adjetivos é um modo que imaginei de incorporar termos matemáticos ao texto, expressando toda a mentalidade racional da personagem, mas, confesso que alguns termos iriam inevitavelmente fugir do conhecimento da maioria, principalmente daqueles que não estão habituados com a linguagem matemática.

      Aprecio a linguagem formal, gosto de explorar a riqueza de nosso vocabulário e contribuir para a singularidade do que escrevo. É algo natural que me acompanha desde a adolescência.

      Obrigado pelo seu sincero comentário, Adriana. Espero que volte e leia outros textos que, talvez, te agradem mais. Beijos ;-)

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  6. Gostei muito, parabéns! Uma linguagem espetacular, uma forma de se expressar super original...
    Já pensou em escrever um livro? ;)

    Pseudo Psicologia Barata

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    1. Muito obrigado pelas palavras, Bea! Já sim, inclusive pretendo iniciar o projeto de um livro para esse ano.

      Beijos e volte mais ;-)

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  7. Olá, gostei muito do seu conto, achei sensacional!
    Você escreve muito bem, um beijo.

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    1. Muito obrigado, Rayane! Volte mais! Beijos!

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  8. Gostei da forma como você misturou seus conhecimentos matemáticos com a sua riqueza e criatividade literária, Vitor! O mais próximo que cheguei disso foi quando, aos meus 14 anos de idade, com a típica bagunça mental causada pelas paixões adolescentes e no meio de uma aula de Matemática, escrevi um texto chamado "X ou Y", haha! Foi um dos primeiros textos do meu blog, inclusive. Caso você queira dar uma olhada... http://www.ounicojeito.com.br/2012/08/210812.html

    Ah, queria te perguntar... conhece uma série chamada "Westworld"? É ótima, e segue uma crítica parecida com as que fazem "Black Mirror" (outra série maravilhosa; devo a você tê-la conhecido.)

    No mais, parabéns, mais uma vez, pelo texto maravilhoso!

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    1. Muito obrigado pelo carinho e pelos comentários sempre interessantes, Lari! Fico feliz que tenha apreciado!

      Já ouvi muito falar dessa série, ando ensaiando, há tempos, para começar a vê-la. Agora, tenho mais um motivo para assistir. E se for tão bom quanto Black Mirror, vou adorar. Obrigado pela dica, Lari! ;-)

      Vou ler seu texto e comento lá.

      Beijos!

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