terça-feira, 30 de agosto de 2016

Febre

Cena do filme "Akira" de  Katsuhiro Otomo

Antes, um organismo incólume, saudável, vigoroso, que funcionava em perfeito equilíbrio.

Antes, ao sinal de quaisquer anomalias, seus eficazes anti-corpos se encarregavam de exterminar as ameaças.

Antes, um corpo vistoso e repleto de detalhes impecáveis.

Até que, algo estranho surgiu...

No início, parecia partícipe do desenvolvimento do organismo, uma evolução biológica em prol da sua sobrevivência.

Porém, revelou-se uma doença, até então, desconhecida, que, gradativamente, dominou o organismo. Uma anomalia incontrolável que, tal como um parasita incessante, consumiu suas células, antes límpidas.

Agora, um organismo vulnerável, doente, debilitado, que funciona em perfeito desiquilíbrio.

Agora, ao indício de quaisquer anormalidades, possui imensas dificuldades para se recuperar.

Agora, um corpo degenerado e decrépito.

Depois de muito tempo, após o aparecimento do câncer, o organismo iniciou uma reação, alguns anti-corpos restantes ainda pelejam bravamente para tentar restabelecer o bem-estar de outrora. 

A plena cura do câncer é questão de tempo.

E esse organismo está extremamente acostumado a lidar com o tempo.


Por Vitor Costa

14 comentários:

  1. Ual, que construção textual...! Mais uma vez: meus parabéns, meu caro: seu talento é grande.

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    1. Muito obrigado, Lari! Elogios seus são sempre preciosos!

      Beijos

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  2. Belíssimo texto sobre algo tão ruim. Escreveste tem uma forma muito boa e simples. E aguardamos a cura do câncer, num corpo que tenta se regenerar...

    Bom final de semana
    http://mylife-rapha.blogspot.com

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    1. Muito obrigado, Rapha! Tanto pela visita quanto pelo comentário!

      Beijos

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  3. Poxa, a vida é muito frágil, a existência uma vela ao vento, o tempo se faz urgente, agora. No imprevisível fluir das hora, viver tudo que possível, desesperadamente. Abraços, Vitor.

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    1. Essa urgência é tudo, Fábio. Grande abraço, amigo!

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  4. A fragilidade da vida por vezes me assusta, por vezes me encanta, por vezes me faz pensar que é isso que nos reúne, nos faz ter compaixão. Independentemente de, o tempo passa: Tic tac tic tac. Frio na barriga.

    Você escreve muito bem!
    Abçs.

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    1. Esse frio na barriga nos faz pensar e pensar dá frio na barriga, André!

      Muito obrigado pelo elogio.

      Grande Abraço!

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  5. Como a vida é frágil, né? Concordo com o Fábio.
    E o tempo que deveria ser o remédio, por muitas das vezes se torna um motivo a mais para desistir, parar não querer saber lidar.
    Muito triste. Somos o câncer do mundo.

    Carol Russo. :*

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    1. "Somos o câncer do mundo" Exatamente o que quis dizer, Carol.

      Saudades de tê-la no mundo dos blogs!

      Beijos

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  6. Meus parabéns pelo jogo de palavras espetacular.
    Encantador!

    Beijo

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    1. Muito obrigado Ariana! Muito bom vê-la novamente por aqui!

      Beijos!

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  7. Olá, Victor. Tudo bem?
    Adorei o texto! Sua escrita me ganhou literalmente.
    Achei muito bacana a forma como trouxe à tona, o quanto nós, humanos somos vulneráveis. E, por outro lado tornou essa fragilidade de uma forma única bem escrita, que tornou o texto, que a principio choca e assusta o leitor em algo encantador de ser lido.

    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigado pelo comentário, Renato! Significa bastante pra mim! Escrevi de uma forma que levantasse distintas interpretações! Valeu mesmo! Coloquei o seu blog como sugestão de leitura por aqui, pois também admiro seu estilo!

      Grande Abraço!

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