terça-feira, 5 de julho de 2016

O Arrivista

 Cena do filme "Barry Lyndon" de Stanley Kubrick
A sensação de plenitude envolvia os passos de Dave, tornara-se um vencedor de fato. A ânsia do alpinista social havia se concretizado e a sociedade finalmente notara sua presença.

Como você era, Dave?
Antes, morto no anonimato, Dave, com sua aparência neutra, de homem pueril de traços rústicos, com fala abonançada e jeito caipira. Dave do Texas, da imensa rispidez do deserto, das paisagens imutáveis preenchidas por vidas singelas.

O que houve, Dave?

Em uma noite, o gracioso comportamento de Dave, repentinamente, vertera-se em poeira. Havia, naquele momento, outro ser vestido de Dave. Os olhos obstinados provocavam pavor aos que o conheciam. Que doença era essa? Suas palavras já não eram afáveis, sua vida já não era o suficiente. Consumido pelo parasita da insatisfação, Dave partiu daquela terra enrugada e decidiu, definitivamente, ser arrivista.

Como você conseguiu, Dave?

Do alto da varanda de sua opulenta casa de praia em Miami, Dave recapitulava, ocasionalmente, sua tortuosa jornada até o topo. Qualquer saudade do Texas era suprimida. Por que sentiria falta daquele lugar lúgubre, se podia viajar a qualquer hora para onde quisesse? Muito menos havia remorso pelas vidas destruídas.

Como se sente, Dave?

Sinto-me extremamente feliz. Tenho o melhor que a vida pode me oferecer.

Como realmente se sente, Dave?

O que você quer de mim? Que eu diga que não sou feliz com o tanto de dinheiro que tenho, seria absurdo. Você não me entende, sempre com seus sussurros politicamente corretos. Por que você simplesmente não desaparece, como fez naquela noite no Texas.

Mas Dave, meu caro amigo, não fui eu quem desapareceu naquela noite.

Por Vitor Costa

7 comentários:

  1. Politicamente correto e consciência são coisas muito diferentes... muito mesmo.
    Fez-me lembrar o Raulzito cantando a sempre atual canção "Ouro de Tolo", que diz assim:

    Ah!
    Eu devia estar sorrindo
    E orgulhoso
    Por ter finalmente vencido na vida
    Mas eu acho isso uma grande piada
    E um tanto quanto perigosa
    Eu devia estar contente
    Por ter conseguido
    Tudo o que eu quis
    Mas confesso abestalhado
    Que eu estou decepcionado

    Porque foi tão fácil conseguir
    E agora eu me pergunto "E daí?"
    Eu tenho uma porção
    De coisas grandes pra conquistar
    E eu não posso ficar aí parado
    (...)

    Geralmente o humano descobre muito tarde que a satisfação do coração não se acha na posse das coisas, e sim no despojamento de todas elas... só muito tarde a maioria descobre isso.

    Meu Olá
    =)

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    1. Grande honra poder recebê-la por aqui novamente, Priscila. Sempre com comentários lúcidos e ricas referências. Discordo um pouco de você, pois não enxergo tamanha diferença entre consciência e politicamente correto. Na maioria das vezes, estão relacionados.

      Meu Olá retribuído :)

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Dave morreu há muito.
    Estar sozinho é a morte.
    Dinheiro pode comprar conforto (eu amo Miami), mas não pode nos comprar companhia.

    Desejo-o afeto.

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    1. Muito pertinente seu comentário, Olívia. Super concordo!

      Obrigado, desejo-te o mesmo ;-)

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  3. A voz da consciência, a razão, os princípios sufocados pelo Dave socialmente aceitável, ideal, como deve ser. Estúpido, Dave. Aí sempre mandando bem na prosa, invejável. Abraços, Vitor.

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    1. Muito obrigado Mestre! Sua presença aqui sempre engrandece esse pequeno espaço! Abraços!

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