terça-feira, 19 de agosto de 2014

Doce Infância


Cena do filme "Meu Amigo Totoro" de Hayao Miyazaki


A mulher, com os olhos taciturnos, encarou a menina e disse:

- Você não sabe a sorte que tem por ser criança.

A menina não prestou atenção e saiu em disparada pela porta, porque as crianças são assim, dispersas e distraídas.

Correu com os pés descalços sentindo a grama molhada, avistou uma borboleta nem tão colorida, mas que, para ela, era um arco-íris em movimento. Guiada pelas cores flutuantes, chegou até uma árvore nem tão extensa, porém, para aquelas retinas diminutas, ela era gigante e o seu topo, inalcançável. Permaneceu ali com os braços esticados para o céu e a esperança de que os galhos pudessem erguê-la até as nuvens.

A menina, impaciente, abandonou a árvore e foi dançar com o vento. Fingiu que estava cansada e se deitou no macio colchão de folhas, porém, logo foi correr com a sua irmãzinha que a imitava em cada gesto. Um pouco depois, entre risadas e brincadeiras, as duas crianças se esvaíram no ar e, repentinamente, o verde vívido da relva se tornou uma terra enrugada e a exuberante árvore, apenas um tronco em decomposição. 

A mulher, segurando um retrato da menina nas mãos, voltou ao seu gélido presente. Naquele instante, com um riso raro invadindo seu rosto, piscou para a menina e disse com a voz afável:

- Muito obrigada.




Por Vitor Costa

17 comentários:

  1. Quando eu era alguns anos mais nova, não via a hora de chegar à adolescência... Meu pedido foi realizado. Agora, com 16, sou adolescente e adoraria voltar a ser criança: sério, eu abriria mão das minhas matérias de Ensino Médio, dos meus sentimentos inconstantes, dos meus dramalhões e receio típicos da fase e até do meu título de eleitor, para isso, hahaha!

    Texto lindo. Pude brincar junto com as personagens. Suas palavras, de certa forma, também trouxeram de volta a minha infância.

    Comentado com carinho, Jeito Único

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    1. Do título de eleitor foi boa haha Eu também abriria mão de muitas responsabilidades que nos impõe (seja na adolescência ou na fase adulta), para voltar a ser criança e não pensar em nada, apenas apreciar os momentos sem saber que os estou apreciando, porque as crianças são felizes e, a melhor parte, é que não sabem disso rs

      Obrigado pelo elogio Lari, significa muito vindo de uma talentosa escritora como você :-)

      Beijos

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  2. Me sinto dividida entre desejos. Não sei se gostaria de voltar a minha infância (até porque ainda sou muito nova, quase uma criança, ainda, digamos) e não ter a ciência das obrigações que, pouco a pouco, me cercam, ou se me sinto lisonjeada por estar vivendo uma fase tão esperada, a famosa adolescência, onde as pessoas dizem viver os melhores momentos de suas vidas, decidindo coisas, circunstâncias que lhe custam a felicidade.
    Só sei que sinto saudade (acho que é essa a palavra e o sentimento certos) de me dar ao desfrute de viver "dispersa e distraída".
    Reflexivo o teu texto, Vitor, parabéns! E eu amava assistir Totoro, haha, gostei.

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    1. Então Carol, eu não sinto saudade da minha adolescência, o número de boas lembranças é bem menor nessa época do que na minha infância, logo, eu sempre escolherei voltar a ser criança...sinto muita saudade, mas também sou grato por ter tido uma infância tão doce e tão pura, já que, infelizmente, muitas crianças não têm essa oportunidade.
      Fico muito feliz por você estar curtindo essa fase, continue assim ;-)
      Obrigado pelios sempre gentis e acalentadores comentários.
      Eu queria ter assistido Totoro quando era criança, com certeza seria algo inesquecível. Mas, eu adorei como se eu fosse uma criança rs

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  3. É, não tem um dia em que eu não pense em como me sinto uma criança e em como gostaria de ser criança de novo. Gostei do texto.

    obs: Ah, o título do blog não tem nenhuma grande razão, é que uma vez me prescreveram seroquel e eu não tomei, e aí ficou esse o nome. Nenhuma história legal pro trás. rs

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    1. Eu também Nicolas, eu também rs principalmente em como me sinto uma criança ainda, diante desse mundo extremamente enfadonho da vida adulta.

      “Quando a gente cresce, o coração morre”

      Abraço

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  4. E a gente aprende que ser criança é bom! ôhh.

    dentrodabolh.blogspot.com

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    1. Bom demais!!! pena que, quando crianças, não temos essa consciência.

      Abraços

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  5. Sempre temos profunda saudade dos tempos de infância, da inocência, da liberdade tão desraigada, cheia de frescor. Lembrar traz-me muito sorriso. O que ela viu foi isso, uma viagem dentro de si. Pôde enfim perceber que no fundo nunca deixamos de ser, basta que a gente sinta.

    Lindíssimo texto Vitor!

    Abração!

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    1. Pois é Alexandre, você definiu perfeitamente: "Pôde enfim perceber que no fundo nunca deixamos de ser, basta que a gente sinta." E é esse sentimento que procuro em mim todos os dias, mesmo que seja por breves instantes. A sensação de me conectar com a criança que, um dia, eu fui, é tão revigorante que me deixa feliz também, com um sorriso bobo no rosto.
      Obrigado mais uma vez por suas sábias palavras.

      P.S.: Não vou te dizer que sumi por correria, por estar ocupado com a vida fora do blog, pois estaria mentindo rs ando tendo tempo de sobra, só não ando tendo muitas inspirações rsrs Mas, volte sempre Alexandre, pretendo não parar de escrever tão cedo por aqui e espero muito que você também não pare no seu blog!!! Abraço

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Mais que verdadeiro. Quando se é criança quer ser adulto e quando adulto quer voltar a ser criança. O ideal seríamos viver cada dia, cada fase, como única porque assim o é. Mas quem nunca sentiu vontade de voltar no tempo e sentir a liberdade que a infância tem? Muito bom o texto! Parabéns!

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    1. Realmente Vanessa, sábias palavras. Há tempo para tudo, mas eu acho que a infância poderia ser uma fase bem maior do as outras rs
      Obrigado pelo comentário e volte mais!! :-)

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  8. "Eu não sei porque que a gente cresce se não sai da gente essa lembrança". Bonito, Victor.

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    1. Que bela frase Fábio, ela resume muito bem essa nostalgia pela infância que nos acompanha pelo resto da vida!

      Muito obrigado.

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